Opinião | Álvaro “Já Morreu”, secretário do Sindigráficos

Data da postagem: 17/04/2026

Estivemos ontem em Brasília na mobilização pelo fim da escala 6×1. Foi um ato importante, com boa presença de trabalhadores e sindicalistas de diversas categorias. Muitos sindicatos, inclusive o nosso, custearam a ida de suas delegações, organizaram caravanas, mobilizaram bases e fizeram o esforço necessário para marcar presença.

 

Mas é justamente aí que começa o problema.

 

Apesar da participação expressiva, faltou algo essencial: voz para quem de fato representa os trabalhadores no dia a dia. Diversas categorias estiveram presentes, mas dirigentes sindicais não tiveram espaço para falar. Nós, do Sindigráficos, organizamos nossa base, levamos nossa direção, solicitamos o direito à palavra — e não fomos atendidos.

 

A prioridade foi dada, mais uma vez, a parlamentares que já possuem mandato, visibilidade e eleitorado consolidado. É legítimo que estejam presentes, mas não faz sentido que monopolizem o espaço em um ato construído, em grande parte, pelo movimento sindical. Depois, nos perguntamos por que é tão difícil eleger representantes oriundos da classe trabalhadora.

 

Sem visibilidade, sem espaço de fala e sem protagonismo, como avançar?

 

A pauta foi entregue, discursos relevantes foram feitos, mas ficou uma sensação incômoda de desamparo entre os sindicatos. Após a passeata, novamente os parlamentares ocuparam o centro das falas. Faltou equilíbrio, faltou organização — e, sobretudo, faltou respeito aos representantes que estão na linha de frente da luta cotidiana.

 

Há ainda questões fundamentais que sequer foram abordadas. Uma delas diz respeito à fiscalização das conquistas. Afinal, quem garantirá o cumprimento de eventuais mudanças? Os parlamentares ou os sindicatos?

 

Sabemos que, na prática, são os sindicatos que enfrentam as tentativas patronais de burlar a legislação — seja por meio de banco de horas, flexibilizações indevidas ou outros mecanismos. Esse debate precisa ser feito com seriedade.

 

Outro ponto crucial é o impacto dos avanços tecnológicos. A última grande redução da jornada ocorreu em 1988, com a fixação em 44 horas semanais. Desde então, a produtividade cresceu exponencialmente, impulsionada pela tecnologia — mas esse ganho não foi compartilhado com os trabalhadores. Pelo contrário: com a reforma trabalhista, houve perdas significativas.

 

É hora de reequilibrar esse jogo.

 

Defender o fim da escala 6×1 é parte desse processo, mas ele precisa vir acompanhado de uma discussão mais ampla, que envolva quem conhece a realidade concreta das relações de trabalho: os sindicatos.

 

Não se trata de excluir parlamentares, mas de construir um movimento mais democrático, que fortaleça as lideranças sindicais e amplie a participação real da classe trabalhadora. Se queremos, de fato, aumentar a representação operária nos espaços de poder, precisamos começar dando voz a quem já está organizado.

 

Fica aqui a reflexão: nas próximas mobilizações, que o protagonismo seja, de fato, do movimento sindical. Porque sem voz, não há avanço — e sem organização, não há conquista.

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